Nos últimos anos, os mercados voluntários de carbono tornaram-se um instrumento importante nas estratégias globais de mitigação das mudanças climáticas. Em países com extensas áreas florestais, como Moçambique, esses mercados são abordados como oportunidade de conciliar a conservação ambiental, o financiamento climático e desenvolvimento rural. Muitos dos projectos implementados no país concentram-se na redução de emissões associadas ao desmatamento e à degradação florestal, no âmbito de iniciativas relacionadas com o mecanismo REDD+ (Redução das Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal, Maneio Sustentável das Florestas, Conservação e Aumento dos stocks de carbono). Contudo, nas paisagens dominadas por florestas de Miombo, o fogo constitui um elemento recorrente da dinâmica ecológica e do uso da terra. As queimadas libertam, não apenas dióxido de carbono (CO2), mas também metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), gases com elevado potencial de aquecimento global quando convertidos em equivalentes de CO2. Apesar disso, muitas metodologias utilizadas em projectos de carbono concentram-se, sobretudo, nas emissões associadas ao desmatamento, dando menor atenção às emissões decorrentes de queimadas. Este Destaque Rural discute a relação entre os mercados de carbono, a dinâmica do fogo e contabilização de emissões nas paisagens de Miombo. Argumenta-se que uma consideração mais sistemática das emissões associadas às queimadas pode contribuir para aprimorar a integridade ambiental dos créditos de carbono e reforçar a eficácia das estratégias de mitigação climática em contextos ecológicos africanos. O texto destaca, ainda, a importância de reforçar a integração do maneio do fogo às políticas públicas voltadas às florestas e às mudanças climáticas.

