Autor: Yasser Arafat Dadá
O estudo analisa o défice de água potável, saneamento e higiene (WASH) como determinante estrutural da pobreza multidimensional e do desenvolvimento rural em Moçambique. Embora o país disponha de estratégias e compromissos formais, persistem privações severas, sobretudo nas zonas rurais e nas províncias do Norte e Centro. A pobreza multidimensional atinge 61,9% da população, elevando-se para 77,1% no meio rural, enquanto o saneamento constitui uma das privações mais persistentes. Entre as crianças, cerca de três quartos enfrentam carências em WASH, com níveis particularmente elevados em Niassa, Cabo Delgado, Nampula e Zambézia.
A insuficiência de WASH amplia a incidência de doenças diarreicas, cólera, desnutrição e atraso de crescimento infantil, reduzindo a acumulação de capital humano. A recolha de água impõe ainda uma elevada pobreza de tempo às mulheres e raparigas, limitando a participação económica, a frequência escolar e a autonomia. Estas desigualdades resultam menos da ausência de conhecimento técnico do que de escolhas orçamentais, fragilidade institucional, insuficiente capacidade local, manutenção deficiente das infra-estruturas e persistência de um viés de género.
O estudo recomenda financiamento público plurianual, monitoria da funcionalidade dos sistemas, integração obrigatória da análise de género nos projectos, recolha de dados sobre qualidade da água e tempo de acesso, e incorporação transversal do WASH nas políticas de desenvolvimento rural, saúde, educação, nutrição e redução da pobreza.
Sustenta-se, assim, que universalizar o WASH exige tratá-lo como direito humano, prioridade redistributiva e investimento produtivo, capaz de interromper ciclos intergeracionais de doença, exclusão territorial, desigualdade de género e reprodução continuada da pobreza rural.
Julho de 2026
