Autor: Yasser Arafat Dadá
O debate dos “cem meticais” não deve limitar-se à possibilidade de uma família rural assegurar refeições mas à questão substantiva de saber se essas refeições garantem uma nutrição adequada. Segurança alimentar não se reduz à ingestão calórica: envolve disponibilidade, acesso, utilização, estabilidade, agência e sustentabilidade, enquanto a segurança nutricional exige diversidade alimentar, micronutrientes e condições que permitam a sua absorção.
O Custo de uma Dieta Saudável constitui, por isso, a referência tecnicamente pertinente. Em Moçambique, cerca de 94% da população não podia, em 2022, custear uma dieta saudável. A restrição orçamental conduz racionalmente os agregados a maximizar calorias por metical, substituindo densidade nutricional por densidade calórica, fenómeno que contribui para a fome oculta. Embora a desnutrição crónica infantil tenha recuado de 43% para 37% entre 2011 e 2022-23, a anemia nas crianças dos 6 aos 59 meses aumentou de 69,1% para 72,9%, evidenciando que melhorias quantitativas não implicam necessariamente adequação nutricional.
A abordagem das titularidades de Amartya Sen demonstra ainda que possuir alimentos ou produzi-los não equivale a ter acesso efectivo a uma dieta adequada. No meio rural, a auto-produção reduz a despesa monetária mas incorpora custos de terra, trabalho, sementes, transporte e risco climático.
As implicações são as seguintes: incorporar o custo da dieta saudável nas políticas salariais e sociais, melhorar os indicadores de qualidade alimentar e reorientar a política agrária para diversificação, micronutrientes e produção nutricionalmente inteligente. A questão central deixa, assim, de ser quanto custa sobreviver e passa a ser quanto custa assegurar desenvolvimento humano sustentável e digno.
Agosto de 2026
