Autor: Yasser Arafat Dadá
O Destaque Rural analisa as cheias de 2026 em Moçambique como um choque que revela fragilidades estruturais do território, da economia e das instituições, indo além de uma leitura puramente climática. O texto defende que as cheias funcionam como um mecanismo de exposição das vulnerabilidades existentes, incluindo ocupação precária do território, fragilidade das infraestruturas, pobreza rural e limitações na capacidade do Estado de prevenir, responder e aprender com eventos recorrentes.
A análise mostra que as cheias em Moçambique não são eventos isolados, mas fenómenos recorrentes com padrões históricos definidos, associados à posição geográfica do país e à dependência de bacias hidrográficas regionais. Apesar de avanços institucionais desde os anos 2000, incluindo a criação de estruturas de gestão de desastres, a capacidade de transformar experiência acumulada em políticas preventivas permanece limitada.
O conceito central é o de aprendizagem institucional incompleta. Embora existam leis, instituições e mecanismos de coordenação, persistem lacunas na capacidade operacional, financiamento, gestão de informação e integração entre níveis central e local. A memória dos desastres não se traduz plenamente em decisões estruturais que reduzam a vulnerabilidade.
O texto sublinha ainda que a resposta continua fortemente dependente de assistência internacional e orientada para a emergência, em detrimento da prevenção. Conclui-se que a repetição das cheias reflecte não apenas factores climáticos, mas dificuldades em consolidar uma capacidade institucional que permita antecipar riscos e promover um desenvolvimento territorial mais resiliente.
Abril de 2026



