Autor: Yasser Arafat Dadá
Este Destaque Rural analisa as cheias em Moçambique a partir de uma perspectiva territorial e demográfica, argumentando que os impactos destes eventos resultam menos da intensidade climática isolada e mais da forma como a população, as infra-estruturas e as actividades económicas foram historicamente organizadas no espaço. A análise mostra que a posição geográfica do país, com extensas planícies de baixa altitude e bacias hidrográficas partilhadas com países a montante, cria condições estruturais de exposição a inundações recorrentes. Contudo, o risco é amplificado pela concentração populacional em zonas ribeirinhas, pela expansão urbana informal e por limitações institucionais no ordenamento do território.
No meio rural, a ocupação de planícies aluviais reflecte escolhas económicas racionais associadas à fertilidade do solo e ao acesso à água, tornando a exposição ao risco parte integrante das estratégias de sobrevivência agrícola. Nas cidades, especialmente em contextos de urbanização acelerada e pouco planeada, a ocupação de áreas de drenagem natural e a insuficiência de infra-estruturas ampliam a frequência e a severidade das inundações. Estes processos produzem perdas económicas, deslocações populacionais e efeitos persistentes sobre pobreza e bem-estar, reforçando armadilhas espaciais de vulnerabilidade.
O estudo sustenta que as cheias devem ser interpretadas como fenómenos de economia espacial e institucional, reveladores de padrões de desenvolvimento territorial que reproduzem a exposição ao risco. Assim, a redução dos impactos exige integrar gestão climática, ordenamento do território e políticas sectoriais. Investimentos em drenagem urbana, infra-estruturas resilientes, planeamento do uso da terra e coordenação institucional surgem como elementos centrais para transformar a gestão de desastres numa estratégia de desenvolvimento territorial mais estável e sustentável.
Março de 2026


