Autora: Kátia Taela
Este artigo analisa a participação das mulheres e raparigas nas manifestações pós-eleitorais em Moçambique entre 2024 e 2025. Este texto explora como essas mulheres transformaram o quotidiano em resistência, ressignificando os contextos de contestação e reconstruindo fronteiras de acção política.
A partir do relato pessoal de Josina e de outros testemunhos, no artigo mostra-se como as mulheres, historicamente marginalizadas nos espaços políticos, têm ressignificado ruas, o seu corpo e redes como territórios legítimos e radicais de contestação. Revela como as práticas quotidianas femininas, frequentemente ignoradas pela narrativa dominante, redefinem radicalmente as fronteiras do que é considerado possível em termos de acção política em Moçambique. Ao fazer isso, essas mulheres desafiam o poder político formal e confrontam os dispositivos sociais que sustentam a sua exclusão. Entrelaçando desigualdades estruturais de género, classe e geração, essas práticas emergem como respostas radicais à crise de cidadania e desigualdades sistémicas no país.
O artigo está estruturado em três partes. Na primeira parte discute-se a invisibilização das mulheres nas manifestações pós-eleitorais e como elas se tornaram protagonistas em acções organizadas e espontâneas, tanto nas ruas, quanto em plataformas digitais. A segunda parte oferece uma análise preliminar sobre as principais formas de actuação das mulheres; especificamente, como transformaram objectos quotidianos, o seu corpo e redes sociais em elementos de resistência política, desafiando normas culturais e patriarcais. Na terceira e última parte reflecte-se sobre o impacto duradouro das manifestações, a transformação das subjectividades políticas e o papel das mulheres na luta por justiça social e democracia em Moçambique.
Julho de 2025

