Autores: João Feijó e Rita Chiúre
Neste texto pretende-se descrever os padrões de violência vigentes durante o período pós-eleitoral de 2024. Argumenta-se que a limitação dos espaços de protesto social por parte das autoridades, frequentemente de forma violenta e desproporcional, despoletou agressividade das populações, desencadeando um ciclo vicioso de intolerância e de agressividade que atingiu o clímax, paradoxalmente, na quadra natalícia. Capitalizando politicamente problemas estruturais de exclusão político-económica, o líder da oposição Venâncio Mondlane incentivou a desobediência civil e o protesto das populações provocando o caos generalizado. Por sua vez, a reacção das autoridades foi marcada pela arrogância e pela crescente violência em relação aos manifestantes, despoletando nas ruas a ira popular e sentimentos de vingança. A destruição dos símbolos de poder, o linchamento de agentes da autoridade e as pilhagens constituíram acções de retaliação em relação à intransigência e violência governamental. Se a proclamação da Lei de Talião ou a reorganização dos naparamas foram entendidos pelas autoridades como acções “terroristas”, “violentas” ou “criminosas”, a verdade é que funcionaram como mecanismos de autodefesa dos cidadãos perante a brutalidade das autoridades. A violência estrutural pós-eleitoral provocou inúmeras feridas no tecido social, exigindo uma investigação isenta e independente dos factos e reparação das vítimas. A reconstrução da paz implica a coragem política para identificar os vários responsáveis, independentemente das simpatias partidárias, amnistias e posterior reforma nos mecanismos geradores de violência pós-eleitoral. A condenação selectiva de actores políticos, com vista à eliminação de futuros adversários eleitorais, apenas reproduzirá o ciclo vicioso do conflito.
Setembro de 2026
