DR # 391 As funcionalidades da pobreza: por que persiste em Moçambique aquilo que todos dizem combater

Autor: Yasser Arafat Dadá

Resumo : O texto analisa a persistência da pobreza em Moçambique através da análise funcional de Merton e Gans. Parte de um paradoxo: apesar de mais de duas décadas de diagnósticos consistentes, estratégias públicas e soluções tecnicamente conhecidas, a pobreza agravou-se. A explicação proposta não assenta em intencionalidade, incompetência ou ausência de conhecimento mas na existência de funções sistémicas que a pobreza desempenha para actores não pobres.

São identificadas sete funcionalidades principais: a reprodução da força de trabalho a baixo custo, sustentada pela agricultura familiar; a informalidade como amortecedor do desemprego e da pressão social; a pobreza como recurso organizacional para estruturas de ajuda e projectos; a dependência e o clientelismo, favorecidos pela assimetria da acção colectiva; o trabalho não remunerado das mulheres como mecanismo de absorção das falhas do Estado e do mercado; a transferência dos custos sociais e territoriais do desenvolvimento para populações com menor capacidade de resistência; e a romantização da resiliência, que transforma falhas institucionais em virtudes individuais.

O argumento central é que existem alternativas para todas estas funções, mas a sua adopção exige redistribuição de rendimento, recursos e poder. Os custos recaem sobre grupos concentrados, organizados e influentes, enquanto os benefícios se distribuem por grupos numerosos, dispersos e politicamente frágeis. Assim, reduzir a pobreza implica identificar quem suporta os custos das reformas e construir coligações capazes de tornar politicamente viável a sua implementação. A questão passa a ser distributiva e política.

Setembro de 2026

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