Autor: Yasser Arafat Dadá
Este Destaque Rural analisa o impacto do choque dos combustíveis de Maio de 2026 sobre a pesca artesanal moçambicana, sector responsável por cerca de 90% da produção pesqueira nacional, 3% do PIB e o sustento directo de quase 400.000 pessoas. O aumento do gasóleo, da gasolina e do petróleo de iluminação elevou os custos operacionais das embarcações motorizadas, que são menos de 5% da frota mas concentram a maior parte das capturas comerciais. O documento identifica um paradoxo inflacionário: o peixe fresco subiu nos mercados urbanos, mas o benefício não chega ao pescador, absorvido antes por uma cadeia de intermediários que repassa os seus custos de transporte. O choque agrava ainda o risco de sobrepesca costeira, à medida que embarcações motorizadas reduzem distâncias percorridas e disputam zonas já exploradas pela pesca sem embarcação. A análise dá particular atenção às mulheres, maioritárias no processamento e na comercialização do pescado, mas praticamente ausentes dos programas formais de crédito e protecção social. As perdas pós-captura, agravadas pela ausência de cadeia de frio, completam um ciclo perverso que reduz a oferta, encarece o peixe e aprofunda a insegurança alimentar das comunidades costeiras. O Destaque termina com recomendações: combustível bonificado para a frota artesanal motorizada, investimento em cadeia de frio solar nos centros de desembarque, acesso das mulheres ao crédito e à protecção social, e formalização das associações de pescadores, visando romper o nó entre custos energéticos, inflação alimentar e vulnerabilidade social que ameaça a viabilidade da pesca artesanal em Moçambique.
Julho de 2026

