Autor: Yasser Arafat Dadá
Este Destaque Rural analisa, numa perspectiva histórica e estrutural, a trajectória do camponês moçambicano ao longo dos 51 anos de independência, evidenciando a persistente dissociação entre soberania política e transformação económica.
Após a independência em 1975, o camponês foi colocado no centro do projecto político, com políticas de colectivização e intervenção estatal no sector agrário. Contudo, estas experiências revelaram-se economicamente ineficazes e socialmente problemáticas, sendo posteriormente abandonadas.
A partir de 1987, com o ajustamento estrutural, registou-se liberalização económica e crescimento significativo, particularmente entre 1993 e 2015. No entanto, esse crescimento não gerou transformação estrutural na agricultura familiar, mantendo baixa produtividade e benefícios limitados para os camponeses.
O período 2016–2025 é caracterizado como uma “década perdida”, marcada por aumento da pobreza, crises económicas e choques externos, que expuseram fragilidades estruturais do modelo económico.
Em 2026, o camponês continua numa posição de elevada vulnerabilidade, marcada por múltiplas dependências estruturais: insumos importados, intermediários na comercialização, condições climáticas, financiamento externo do Estado e custos do combustível.
O texto conclui que a independência política não se traduziu em soberania económica para o camponês. Defende-se que a verdadeira prioridade deve ser a transformação estrutural da agricultura e das condições de produção rural, garantindo acesso a crédito, tecnologia, mercados e segurança fundiária.
Junho de 2026

