Autora: Natacha Bruna
Este Destaque Rural problematiza o discurso de “urgência” de redução de emissões, particularmente direccionado a países e populações com baixa pegada de carbono, como é o caso de Moçambique. Os moçambicanos já são desproporcionalmente impactados por uma crise para a qual não contribuíram significativamente, porém também carregam a responsabilidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE) solucioná-la, por exemplo, hospedando projectos de produção de créditos de carbono. Estimativas mostram que classes e regiões que mais poluem mantêm crescentes emissões resultantes de elevados níveis de consumismo ou de industrialização. E os mercados de carbono, legitimados pelo discurso de “urgência”, favorecem que estas classes atinjam seus objectivos climáticos através da compra e uso de créditos de carbono. O alcance destes objectivos só é possível através da imposição de restrições de emissão a outros actores, geralmente a classes significativamente não poluidoras. Portanto, a questão de fundo não é a “urgência”, mas, sim, quem tem poder económico e político para se abster da imposição da mesma. Moçambique não teria urgência em mitigar se os países e elites não tivessem extrapolado a sua quota-parte justa de emissões. Este texto argumenta que os mercados de carbono enviesam a responsabilidade climática e constituem uma ferramenta de reprodução de desigualdade de emissões de carbono e de injustiças climáticas. Entende-se que Moçambique não tem “urgência” em mitigar, a não ser que seja para responder a objectivos climáticos de terceiros, incluindo manter estilos de vida de elites e padrões de industrialização de países mais desenvolvidos.
Novembro de 2025

