Autor: Yasser Arafat Dadá
Este Destaque Rural analisa a evolução da insegurança alimentar e do estado nutricional no meio rural moçambicano entre 1975 e 2025, contextualizando os desafios históricos, estruturais e climáticos enfrentados pelo país desde a independência. Apesar de avanços na disponibilidade de alimentos e crescimento económico, a desnutrição crónica manteve-se persistentemente elevada devido à pobreza rural, frágil sistema de saúde, baixa educação nutricional, saneamento deficiente e vulnerabilidade a choques (secas, ciclones, conflitos e outros).
O período pós-independência foi marcado por guerra civil, crises alimentares e dependência de ajuda externa. Com o fim do conflito em 1992, seguiu-se uma fase de reconstrução agrícola e melhoria parcial nos indicadores de subnutrição. Contudo, nas décadas seguintes, os ganhos económicos não se traduziram em progresso nutricional equitativo. Alguns programas tentaram integrar sectores como saúde, agricultura e educação, mas sofreram limitações de cobertura, monitoria e implementação. A insurgência em Cabo Delgado, eventos climáticos extremos e impactos da COVID-19 agravaram ainda mais a situação.
A análise conclui que Moçambique continua a viver um paradoxo: maior acesso médio a alimentos, mas níveis críticos de desnutrição crónica. Para romper esse ciclo, recomenda-se uma abordagem integrada, com reforço da agricultura familiar, melhoria de infra-estruturas rurais, acesso à água e saneamento, protecção social direccionada, educação alimentar e empoderamento feminino. É igualmente essencial fortalecer a governação, monitoria multissectorial e garantir o direito humano à alimentação como compromisso de Estado. Assim, será possível transformar a segurança alimentar em realidade no meio rural moçambicano.
Julho de 2025

