Autor: Yasser Arafat Dadá
A agricultura camponesa é um pilar para milhões de famílias em Moçambique e em diversas partes do mundo. No entanto, a sua evolução resulta de um equilíbrio complexo entre factores sociais, económicos, ambientais e institucionais. Este livro parte de uma reflexão sobre as estratégias de produção camponesa para, depois, analisar na realidade específica do distrito do Búzi, revelando desafios, estratégias e oportunidades enfrentadas pelos pequenos produtores locais.
O estudo aqui apresentado foi guiado por questões essenciais viradas para a produção agrícola, nomeadamente: Quais os principais factores que influenciam a produção agrícola camponesa no Búzi? Que dificuldades e possibilidades se colocam aos pequenos produtores do Búzi? E de que forma políticas públicas e iniciativas locais podem fortalecer a resiliência desse sector? A investigação procurou responder a essas perguntas articulando uma base teórica com uma análise empírica, sustentada por inquéritos e entrevistas realizadas junto a pequenos produtores e actores-chave.
Num primeiro momento, o livro contextualiza a agricultura camponesa no panorama teórico, explorando conceitos fundamentais que ajudam a compreender as escolhas e estratégias dos pequenos produtores em Moçambique e, particularmente, no distrito do Búzi. São inseridos nesse quadro a influência de factores históricos (como as políticas agrárias pós-independência e as reformas económicas) e macroestruturais (mercados globais, mudanças climáticas e políticas públicas). Esse enquadramento permite perceber a agricultura camponesa como um fenómeno moldado por múltiplas interacções entre escassez de recursos, instabilidade climática, mercados voláteis e apoio estatal insuficiente.
De seguida é feita a análise dos dados recolhidos no terreno. Para o efeito, caracterizamos a estrutura socioeconómica das famílias agrícolas, examinamos os principais obstáculos que enfrentam como – acesso limitado a crédito, dependência de mão-de-obra familiar e vulnerabilidade às variações climáticas – e quantificamos os impactos dessas dificuldades. A análise revela, entre outros aspectos, que grande parte dos produtores não tem acesso a crédito e cultiva parcelas pequenas, muitas vezes herdadas ou distribuídas por sistemas tradicionais, enfrentando desafios como conflitos fundiários e solos de baixa fertilidade. Esses dados não apenas aprofundam a compreensão sobre os factores que limitam a produção camponesa no Búzi, mas também contribuem para a literatura sobre agricultura familiar em Moçambique.
Outro tema central explorado é a forma como os camponeses desenvolvem estratégias de produção e sobrevivência em resposta às incertezas do sector. Ao articular economia agrária e antropologia rural, analisamos como práticas como a diversificação de culturas, o armazenamento de alimentos e a cooperação não são apenas reacções instintivas, mas estratégias racionais. Essas descobertas dialogam com debates sobre adaptação e resiliência climática, trazendo novas evidências sobre a capacidade dos agricultores do Búzi de gerir riscos e assegurar sua subsistência em condições adversas.
Por fim, o livro discute o papel das políticas públicas e das instituições de apoio à agricultura na pequena produção. A análise mostra que a presença de serviços de extensão agrícola e programas de assistência técnica tem um impacto positivo na produtividade, corroborando com a literatura que defende a difusão de informação e tecnologia como factores-chave para o desenvolvimento rural. A investigação evidencia a necessidade de fortalecer essas iniciativas para ampliar os seus efeitos e alcançar um número maior de produtores.
Este livro combina métodos quantitativos e qualitativos. Em termos de contribuição, o estudo reafirma a importância de estratégias já reconhecidas, como a diversificação da produção, mas também revela novos elementos, como o papel da estrutura familiar na adopção de práticas agrícolas específicas. Dessa forma, este livro oferece reflexões sobre a resiliência da agricultura familiar em contextos de risco, trazendo subsídios tanto para a academia quanto para formuladores de políticas e actores do desenvolvimento rural.
Novembro de 2025





